ORGA 1.0: Poeira Verde

Naquela noite, Ricarda sonhou de novo.

Não com a torre negra — mas com uma cidade que nunca vira. Ruas de vidro, arranha-céus em forma de cristais, luzes que mudavam de cor como auroras. Ao fundo, uma praça circular pulsava em branco ofuscante. No centro, erguia-se algo entre templo e trono. As pessoas se ajoelhavam, murmurando orações para uma figura luminosa.

Quando tentou se aproximar, viu o reflexo em uma parede de vidro: não havia homem algum no trono. Apenas um cristal colossal, latejando como um coração. Ela acordou suando, sem entender.

De manhã, tudo parecia normal. Até que, na cozinha, viu o pai com os sapatos cobertos de um pó verde-claro — a mesma cor da praia dos sonhos.


— O que é isso? — perguntou, tocando de leve. O pó era frio, áspero, como pedra molhada.


Dr. Motta recuou rápido demais.
— Poeira de escavação — disse, firme, sem encará-la.

Certa madrugada, faróis cortaram a estrada. Uma van sem placas parou no portão. Desceram duas figuras — terno cinza e pastas pretas. Sem nome, só um brasão com serpente e punhal.

O pai agradeceu. Não a apresentou. Ricarda ficou na sombra, observando-os sumirem por uma porta trancada atrás de cortinas de chumbo.

Ricarda não acreditou.

Na escola improvisada de Humaitá, passou a manhã distraída, rabiscando cristais no caderno de biologia. No recreio, girou o rádio do celular: chiado, depois uma voz metálica.

— …o Vazio… fase três… abertura em cinco dias…

O sinal se apagou.

À noite, tentou contar ao pai. Ele riu seco, mudou de assunto, voltou para o galpão. Ricarda ficou sozinha, ouvindo a floresta respirar, pensando no sonho. Madrugada. Passos no assoalho. A rede do pai, vazia. Na mesa, um bilhete apressado:

“Não mexa no galpão. É perigoso.”

O coração dela disparou.

Pela janela, o galpão brilhava.

E, por um instante, ela teve certeza: dentro daquela luz, ardia a mesma poeira verde — a mesma que iluminava a cidade impossível dos seus sonhos.

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Tiago Nagaito
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