ORGA 1.0: A Filha do Cientista

Ricarda Motta não queria estar ali.

Três meses antes, sua vida era cursinho, metrô e chuva ácida em São Paulo. Agora, o horizonte era o Rio Madeira, calor pegajoso e uma casa de madeira em Humaitá.

“Transição necessária para minhas pesquisas”, repetia o pai, como um disco arranhado.

Dr. Henrique Motta era físico. “Estruturas de Espaço-Tempo Aplicadas”. A SANTech bancava tudo: a mudança, o laboratório improvisado num galpão afastado. Ricarda pesquisou a empresa. Nada. Só um selo vermelho: SANTech – Desenvolvimento Avançado. E, no rodapé, uma sigla: S.G.S.

As noites eram as piores. Enquanto o pai desmontava máquinas e murmurava para si mesmo, Ricarda dormia numa rede entre cases de alumínio — sempre acordando do mesmo sonho: uma torre negra, cercada de névoa e floresta, com um mar esverdeado brilhando ao redor.

Certa madrugada, faróis cortaram a estrada. Uma van sem placas parou no portão. Desceram duas figuras — terno cinza e pastas pretas. Sem nome, só um brasão com serpente e punhal.

O pai agradeceu. Não a apresentou. Ricarda ficou na sombra, observando-os sumirem por uma porta trancada atrás de cortinas de chumbo.

Lá dentro, ouviu risos abafados. E uma frase em língua estranha — consoantes secas, sibilos curtos. Logo depois, a luz piscou. Um vento frio atravessou o galpão. Os monitores pularam de 60 hertz para 66,6. O visor do celular dela embaçou por dentro.

Então, silêncio.


Mais tarde, o pai deixou um bilhete escondido no caderno de biologia:

“Não mexa em nada. É perigoso.”

 


Na manhã seguinte, ela viu poeira verde nos sapatos dele — mesma cor da praia que via nos sonhos. Tocou. Gelado como pedra.

A caminho da escola, a rádio chiou. E uma voz surgiu, cortando a estática:

— …fase três… abertura em sete dias…

O sinal caiu. Ricarda engoliu em seco e anotou a data.

No recreio, encontrou na mochila um papel que não era seu: diagramas, equações indecifráveis e, no rodapé, S.G.S. — com uma única palavra escrita à mão:

“S.”

Ela trancou o documento no armário. Não sabia quem era S. Mas naquela noite, ao sonhar com a torre outra vez, alguém — ou algo — estaria esperando por ela no topo.

Tiago Nagaito
Tiago Nagaito
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